.

04/11/2025

Accept e a reunião turbulenta de 2005: os bastidores revelados em livro

livro a historia do Accept


Metal Heart: A História do Accept


Poucas bandas do heavy metal conseguiram construir um legado tão sólido e ao mesmo tempo tão conturbadoquanto o Accept. Ícones absolutos da escola alemã de metal, os caras moldaram o som pesado europeu nos anos 1980, mas também viveram altos e baixos que dariam um enredo de cinema. Um dos capítulos mais intensos dessa trajetória aconteceu em 2005, quando a formação clássica tentou se reunir após anos de separação. 

O resultado? 

Conflitos, frustrações e, por fim, o nascimento de uma nova fase.


Esses bastidores são contados com riqueza de detalhes no livro “Metal Heart: A História do Accept”, do renomado biógrafo Martin Popoff, lançado no Brasil pela Estética Torta. A obra mergulha fundo na jornada da banda dos primeiros riffs até os dias de hoje e revela o que realmente rolou naquela tentativa de reconciliação entre o guitarrista Wolf Hoffmann, o baixista Peter Baltes e o vocalista lendário Udo Dirkschneider.


Mas afinal, o que deu tão errado naquela reunião que prometia reacender a chama do Accept? 

Vamos revisitar essa história e entender por que aquele reencontro marcou o fim definitivo de uma era.


O Accept após os anos 90: desgaste e desilusão


Para quem acompanhou o Accept nos anos 80, é impossível esquecer o impacto de álbuns como Restless and Wild, Balls to the Wall e Metal Heart. Só que, após essa fase de ouro, vieram tempos difíceis. Nos anos 90, com os discos Death Row (1994) e Predator (1996), o grupo mergulhou em uma crise criativa e pessoal.


Enquanto Udo Dirkschneider não concordava com os rumos que a banda tomava, Wolf Hoffmann e Peter Baltes buscavam novos caminhos musicais. O guitarrista Stefan Kaufmann, ex-baterista que havia migrado para a guitarra, observava as brigas internas com crescente desânimo. O clima ficou tão pesado que a única saída foi colocar o Accept em pausa, uma pausa que, por muitos anos, parecia definitiva.


Com o fim da banda, Udo e Stefan se voltaram para o projeto U.D.O., que ganhou força própria e manteve o espírito do metal alemão vivo. Kaufmann chegou a afirmar que uma reunião do Accept seria um erro: para ele, voltar apenas por razões comerciais seria “uma grande mentira” e trairia o legado construído nos anos dourados.


E você, leitor já pensou como seria ver uma das suas bandas favoritas voltando apenas por obrigação, sem aquela faísca criativa que faz tudo valer a pena?


A faísca inesperada: Rock Hard e o convite para o reencontro


O tempo passou e o Accept parecia destinado ao passado. Até que uma revista mudou tudo. A lendária publicação Rock Hard, uma das mais respeitadas da Alemanha, estava completando 20 anos e quis celebrar o marco de uma maneira especial: trazendo o Accept de volta aos palcos.


Segundo relata Martin Popoff em Metal Heart – A História do Accept, o convite mexeu com os ânimos. Afinal, o Accept havia sido capa da primeira edição da Rock Hard, lá no começo dos anos 80. O simbolismo era irresistível.


Wolf Hoffmann contou que, num primeiro momento, Udo recusou a proposta — o vocalista estava focado em sua banda e deixou claro que o Accept não era prioridade. Mas, com o tempo, a ideia amadureceu e, em 2005, a reunião finalmente saiu do papel.


“Eles começaram a revista quando o Accept começou. Era o momento perfeito”, relembrou Hoffmann. O reencontro, contudo, já nascia cercado de desconfianças e ressentimentos.


Nos bastidores da reunião: ensaios, tensões e ressentimentos


A formação escalada para essa volta era quase um “dream team” do Accept: Udo Dirkschneider nos vocais, Wolf Hoffmann e Herman Frank nas guitarras, Peter Baltes no baixo e Stefan Schwarzmann na bateria. Mesmo sem ser exatamente a formação original, todos tinham história com a banda.


Os ensaios começaram logo em janeiro de 2005. Segundo Hoffmann, o processo foi um verdadeiro teste de paciência. As negociações eram longas, e bastava uma faísca para o clima azedar. Ainda assim, quando subiam ao palco, tudo fluía. Era como se o peso das desavenças desaparecesse por alguns minutos, substituído pela força coletiva do metal.


O repertório da turnê trouxe os clássicos que os fãs queriam ouvir, mas também algumas surpresas. Hoffmann dizia querer fugir do óbvio, misturando hits com faixas raramente tocadas ao vivo.


Mas mesmo com o sucesso dos shows, o guitarrista já demonstrava ceticismo. Em entrevistas daquele período, ele deixava claro que não via futuro na reunião. Em suas palavras, a convivência com Udo era difícil, e as divergências tornavam quase impossível imaginar o Accept funcionando como antes.


E aqui cabe uma pergunta: será que bandas lendárias deveriam mesmo tentar reviver o passado, ou é melhor preservar o legado como ele foi deixado?


Udo Dirkschneider: entre o U.D.O. e o passado


Para Udo, a turnê serviu como um teste emocional. Em declarações reproduzidas no livro de Popoff, ele admitiu que, apesar da nostalgia e da diversão em reencontrar os antigos colegas, sentia-se deslocado. Cada show o fazia perceber que pertencia, de fato, ao U.D.O., a banda que havia construído após o fim do Accept.


“Não sei explicar bem, mas a sensação não estava boa. Quis fazer a reunião apenas para ver se ainda havia algo ali, mas percebi que, para mim, o Accept tinha acabado de vez”, contou.


A honestidade de Udo contrasta com a frustração de Hoffmann, que acreditava que o vocalista dificultava o progresso do grupo. Para o guitarrista, Udo preferia ser dono de 100% de seu próprio projeto a dividir decisões dentro do Accept.


Essas declarações, trocadas na imprensa, mostravam que a velha química dos anos 80 não estava mais lá. A reunião, que deveria celebrar o passado, acabou expondo feridas antigas.


Somos sempre nós contra Udo”: a fratura definitiva


Hoffmann chegou a desabafar em entrevistas que a relação com o vocalista era um eterno campo de batalha. “Estamos tentando o que podemos, mas é sempre nós contra Udo”, afirmou em 2005.


O guitarrista via no vocalista uma resistência constante a qualquer tentativa de planejamento de longo prazo. Já Udo alegava que Hoffmann e Baltes sabiam, desde o início, que ele não pretendia seguir com o Accept. Segundo o vocalista, ele deixou claro que sua banda era prioridade, e se aceitou participar da turnê foi apenas por curiosidade e respeito aos fãs.


A troca de farpas aumentou com o tempo. Hoffmann insinuou que Udo tinha inveja do sucesso do Accept, enquanto o cantor rebateu dizendo que o guitarrista estava “reescrevendo a história”. A tensão chegou a um ponto em que a convivência se tornou insustentável.


2009: o Accept renasce sem Udo


Com o fim da turnê, o Accept voltou à estaca zero. Mas Hoffmann e Baltes não estavam prontos para abandonar o barco. Em 2009, eles decidiram seguir em frente com uma nova formação e um novo vocalista: Mark Tornillo, ex-TT Quick.


O resultado foi “Blood of the Nations” (2010), um álbum poderoso que marcou o renascimento do Accept para uma nova geração. Mesmo sem Udo, o grupo conseguiu resgatar o espírito clássico com uma sonoridade moderna, conquistando elogios da crítica e dos fãs.


Ironicamente, foi o fracasso da reunião de 2005 que pavimentou o caminho para esse novo ciclo. Às vezes, é preciso fechar uma porta para abrir outra.


O livro “Metal Heart: A História do Accept”:


O relato completo desses bastidores  e de muitas outras histórias está em “Metal Heart: A História do Accept”, escrito por Martin Popoff e lançado no Brasil pela editora Estética Torta.


Popoff, um dos maiores biógrafos do rock e do metal mundial, reconstrói a jornada da banda desde o início, abordando não só os conflitos internos, mas também a genialidade musical que fez do Accept um dos pilares do heavy metal europeu.


Para quem é fã da banda ou simplesmente ama histórias de superação, rivalidades e música pesada  o livro é leitura obrigatória. Ele não romantiza a trajetória do grupo, mas mostra o quanto o Accept sempre foi movido por uma mistura explosiva de talento, ego e paixão.


Quer mergulhar mais fundo nessa história? 

A versão brasileira do livro está disponível no site da editora


Reflexão final: o preço da grandeza


A história do Accept é, no fundo, uma lição sobre o preço de se manter fiel à própria essência. Bandas como eles mostraram ao mundo que o metal alemão podia ser tão pesado e poderoso quanto o britânico ou o americano. Mas também provaram que nenhuma trajetória grandiosa está livre de desentendimentos.


A reunião de 2005 foi, ao mesmo tempo, um tributo ao passado e um ponto final necessário. Sem ela, talvez o Accept nunca tivesse encontrado fôlego para renascer com Mark Tornillo e continuar gravando discos matadores.


E você, o que acha? 

O Accept deveria ter insistido em manter a formação clássica ou tomou o rumo certo ao seguir em frente?

Deixe sua opinião e compartilhe o artigo com outros fãs afinal, discutir o metal é parte do que mantém essa chama viva.









UP